Parte I - Portugal, um mercado em explosão
1. Evolução e crescimento do
franchising
1.1 Origem
e terminologia
A palavra franchising, de
consonância americana e traduzida por franchise, é na realidade de origem
francesa. Com efeito, no antigo francês, Fran significava concessão de um
privilégio ou de uma autorização. As cidades francas, eram as cidades que podiam
utilizar em seu proveito um privilégio outrora reservado ao Senhor.
Na Idade Média, uma cidade franca ou
franqueada, era uma cidade que oferecia a livre circulação de pessoas e bens que nela
podiam transitar. O verbo franquear significava conceder um privilégio ou autorização
mediante a cedência de uma serventia. Os Senhores ofereciam então "Lettres de
franchise" às pessoas, mediante pagamento de uma certa importância, e
concediam-lhes uma certa liberdade em prejuízo da sua autoridade.
O termo inglês franchising contém
o mesmo significado, e refere-se à concepção liberal de filiação numa empresa líder
e ao contrato que materializa tal filiação. Apareceu no século. XIX, mas não se
desenvolveu, uma vez que imperava a filosofia de que
" O segredo é a alma do
negócio"
o qual abrangeria fórmulas de
fabrico, custos, clientes, fornecedores, contabilidade, enfim, tudo o que se poderia
relacionar com o negócio e suas relações, quer internas, quer externas.
Em português, a expressão
"franquia", relaciona-se com os conceitos de isenção e privilégio, mas
também com os actos de selar e estampilhar. A sua relativa novidade em Portugal não
permitiu ainda a sedimentação da terminologia. Assim, alguns autores utilizam a
expressão "franquia", como o acto de desimpedir o acesso, patentear, conceder
ou proporcionar, outros justificam-na pela remissão para a versão portuguesa da
legislação comunitária.
É no século. XVII que encontramos uma
situação mais próxima do actual franchising, na medida em que, as empresas
podiam conceder a uma filiada o privilégio do exercício de uma actividade numa dada zona
através do pagamento de uma renda anual.
No fim da Segunda Guerra Mundial, a
expressão volta a aparecer nos Estados Unidos, agora
já conotada de outro significado, mais económico e indicava a criação de um novo
sistema de distribuição.
É a partir daqui que se desenvolverá este
sistema que vigora até aos nossos dias, em constante evolução.
Franchise - Francês
Franchising - Inglês
Franquia - Português
Regista-se uma certa controvérsia sobre a
terminologia mais adequada para designar este novo método empresarial, agora em franca
expansão.
O termo mais utilizado é o inglês - franchising,
quer nas publicações sobre o tema, quer na gíria da gestão e dos negócios.
Contudo, a Associação mais representativa do sector optou por adoptar a terminologia
francesa, designando por franchise a técnica em si e consagrando na nossa língua
dois galicismos - franchisador e franchisado - para designar as partes envolvidas num
eventual contrato. Assim, deverá chamar-se franchisador a quem concede o direito de
explorar uma marca, uma fórmula comercial, um método ou esquema industrial, um conjunto
de produtos ou serviços por si concebidos ou desenvolvidos, e transmite os conhecimentos
e experiência necessários à exploração da actividade.
Por outro lado recebe a designação de
franchisado o agente económico a quem a concessão é feita.
Esta nomenclatura, porém, está longe de
ser pacífica. Quer os puristas na língua, quer uma porção considerável de juristas,
têm optado por utilizar os termos portugueses considerados equivalentes: O método surge
designado por franquia, bem como o correspondente contrato, enquanto que para as partes
envolvidas são utilizados os termos - franqueador e franqueado.
As variações da terminologia não encerra
em si qualquer perigo ou inconveniente. Estes resultam de um escasso ou inexistente
enquadramento jurídico deste tipo de actividade em inúmeros países, entre os quais
muitos europeus.
Sem menosprezar os argumentos que possam
aduzir a favor de uma ou outra opção, no que respeita a terminologia a adoptar, pode
aceitar-se como razoável a utilização de qualquer uma das variantes, na prática
negocial, desde que se coloque zelo suficiente na explanação dos termos utilizados -
aspecto muito mais importante e decisivo, para as partes intervenientes. Assim, ao longo
deste trabalho poderão ser utilizados qualquer um destes termos.
1.2 Considerações
Gerais
O franchising é uma modalidade de
negócio em plena expansão, não só em Portugal, como em todo o mundo. Com um risco
menor, permite concretizar o sonho de trabalhar por conta própria, em associação a uma
marca com créditos no mercado.
Criado nos Estados Unidos logo após o
final da Segunda Guerra Mundial, expandiu-se rapidamente para o resto do mundo nas
décadas seguintes, traduzindo-se numa rápida proliferação de marcas franqueadas e
consequentemente, de uma vasta rede de pontos de venda franqueados.
A Europa está longe desta expansão mas
começa a reconhecer as vantagens da venda de conceitos a métodos uniformizados. A
França é o país com maior número de adeptos deste tipo de negócio.
Chegar a todo o lado com uma marca e poder
oferecer um negócio a quem não tem experiência de gestão fizeram do franchising
a forma de expansão comercial mais segura e mais popular do século XX.
Vende-se um Know-How, uma fórmula de
sucesso, sobre a qual o interessado paga uma espécie de direitos de autor.
Hoje tudo é franchisável, ou seja, basta
ter encontrado uma forma de fazer negócio e vender a ideia, uma licença, uma técnica ou
um serviço.
É a diferença de mentalidades na Europa e
nos Estados Unidos que explica o sucesso dos norte-americanos. O empresário americano que
assina um contrato de franchising está atrás do balcão, conduz o negócio em
família. Os europeus tendem a delegar as funções de atendimento nos empregados.
Portugal não constitui excepção à regra
apesar do atraso em relação aos seus parceiros comunitários, tendo tido, no entanto, um
impacto positivo e dinamizador no tecido empresarial português. Embora tenha entrado no
nosso país em 1987, só quase sete anos depois começava a dar lugar às empresas
portuguesas. Com efeito, este sistema era quase exclusivo das marcas estrangeiras que,
apesar de considerarem o nosso mercado bastante pequeno, não hesitaram em explorar o
território tornando o empresário português num potencial franqueado.
Conforme atrás referido, o ano de 1987 foi
o ano de exploração deste sistema no nosso país, prenunciando desde logo um crescimento
rápido. Neste ano o país foi invadido por cadeias de franchising, beneficiando as
empresas estrangeiras das condições do nosso mercado.
A implantação de novas redes foi então
favorecida pelo crescimento do consumo e pela alteração das estruturas económicas
tradicionais.
Este ambiente propício ao desenvolvimento
do franchising foi favorecido nos anos seguintes com algumas políticas
governamentais, como seja, a gradual "destruição" das barreiras burocráticas
e as modificações introduzidas na rede cambial e nos pagamentos ao exterior.
Do mesmo modo, os bancos e as
instituições financeiras começam a descobrir no franchising uma nova área
financeira geradora de fluxos cambiais e monetários.
1.3 Franchising
no estrangeiro
1.3.1 Estados Unidos
Foram os Estados Unidos os primeiros a
experimentar, de forma alargada e sistemática este tipo de conceito, assim como os
primeiros a legislar em matéria de franchising.
Segundo a International Franchising
Association (IFA), só nos Estados Unidos da América existem mais de 555.000 franchisings
em funcionamento, que geram um volume de negócios superior a 800 biliões de dólares por
ano...
Em cada 8 minutos um novo
estabelecimento
A General Motors e a Ford, construtores de
automóveis, foram as primeiras a aderirem a este sistema, sendo rapidamente imitados por
produtores de gasolina e de pneus, assim como por um vasto sector da distribuição.
Começaram a florescer, então, os denominados franchisings tradicionais ou de
"primeira geração", que cobriram actividades como a venda de automóveis,
engarrafamento de bebidas e estações de gasolina. Nos anos 70, o contrato de franchising
expandiu-se na Europa e hoje pode afirmar-se que esta actividade tem uma importância
económica relevante em diversas áreas tais como a moda, a alimentação e bebidas, os
transportes e a hotelaria, sendo de prever que a sua importância aumente em termos de
volume de negócios, quotas de mercado e emprego.
Devido ao desenvolvimento verificado, e na
perspectiva do "dinheiro fácil", por volta dos anos 70, verificaram-se alguns
escândalos e diversas burlas provocadas por oportunistas pouco escrupulosos. Razão esta
que explica o facto de serem os Estados Unidos o primeiro país a legislar em matéria de franchising,
sendo de particular relevância o
"Disclosure Requirements and
Prohibitions Opportunity Ventures"
um regulamento da Federal Trade Comission.
Este regulamento obriga o franqueador a
fornecer, antes da assinatura do contrato, informações pormenorizadas, tais como:
identificação,
história e experiência do franqueador,
descrição detalhada do negócio:
- técnicas utilizadas,
- volume e modos de investimento,
- encargos de exploração,
- planos de publicidade,
- recursos humanos disponíveis,
- resultados previsíveis,
objecto do contrato,
informação sobre as quantias a pagar pelo franqueado,
restrições impostas ao franqueado, quer de um ponto de
vista territorial, quer do ponto de vista do abastecimento,
de formação do franqueado e o conteúdo pormenorizado do
contrato a ser assinado com indicação clara, das cláusulas de duração e resolução
do contrato.
Os Estados Unidos demonstraram, antes da
Europa, que as empresas criadas em franchising apresentam maiores hipóteses de
sobrevivência que aquelas desenvolvidas em moldes tradicionais. As PME são a categoria
mais numerosa de empresas, mas também o lote mais importante de projectos empresariais
mal sucedidos.
O franchising é visto como uma
forma de reduzir o risco para o novo empresário e a prova está no facto de a percentagem
de falências ser muito mais baixa que no caso das PME.
O franchising, nos Estados Unidos,
demonstra que tudo é possível em matéria de relações comerciais. Aquele país ainda
é inovador neste sistema, ao desenvolver o conceito e a prática de franquia de
serviços. Ele é por excelência o mercado-cobaia do franchising, para novas
experiências. Neste sentido, várias indústrias têm merecido uma considerável
expansão, não tendo ainda atingido os mercados internacionais, como é o caso de franchisings
ligados à Internet, que podem oferecer serviços, desde a construção de sites à
formação de utilizadores.
Outra indústria a considerar como
oportunidade de negócio são os lares de terceira idade, cada vez mais necessários numa
sociedade que não tem tempo de cuidar de idosos.
Os Estados Unidos, são um dos poucos
países que fazem um ranking dos seus franqueadores. No país das estatísticas, a
comparação é o método de análise favorito. Este estudo é levado a cabo pela
publicação Entrepeneur International. Esta, leva em conta inúmeros factores,
como o poder e a estabilidade financeira, a taxa de crescimento e a dimensão da cadeia.
Quadro 1.1 As maiores marcas dos
EUA
RANKING |
Marca |
Sector |
| McDonalds
|
Fast-food |
| Burger King, Corp.
|
Fast-food |
| Yogen Früz Worldwide |
Gelataria |
| Subway |
Fast-food |
| Baskin-Robbins USA, Co. |
Gelataria |
| GNC Franchising, Inc. |
Alimentação natural |
| KFC |
Fast-food |
| Dairy Queen |
Gelados e Sanduíches |
| Mail Boxes Etc. |
Serviços para empresas e particulares |
| Jani-King |
Limpeza comercial |
______________________________________
Fonte: Entrepreneur International. |
Depois são também
consideradas outras coordenadas, como o número de anos que a rede opera, quando começou
a franquear, custos de entrada, história de litígio e se o franqueador fornece ou não
financiamento. De fora ficam outros factores, não menos importantes, como por exemplo o
grau de satisfação dos franqueados.
De há uns anos a esta
parte, este ranking é liderado por empresas do sector da restauração, mais precisamente
do ramo de fast-food, como os impérios dos hamburguers, estando em primeiro lugar a
cadeia de restaurantes Mcdonald's. É a cadeia de hamburguers mais famosa do mundo, que
serve cerca de 1% da população mundial. É detentora de cerca de 23 mil restaurantes
localizados em 109 países. |

|
No entanto, novas tendências se avizinham
neste mercado fértil em oportunidades. Três dos dez primeiros lugares do ranking
anual são de sobremesas congeladas - gelados, iogurtes e ices and soft serve (gelados e
sanduíches).
Grandes cadeias como a Baskin-Robbins, a
Dairy Queen e a Yogen Fruz apostam no aliciante destas doçarias refrescantes.
Outro mercado em expansão
nos Estados Unidos é o da educação e formação, explorado por cadeias como a Future
Kids e a Kumon. Cada vez mais os empregadores se preocupam com a preparação académica e
profissional dos seus empregados.
1.3.2 Brasil
No Brasil, o franchising cobre quase
todas as áreas de negócio. O próprio Estado aderiu a este sistema através de uma
empresa de grande dimensão: os Correios.
Nos últimos cinco anos as unidades
franqueadas têm crescido a uma taxa anual de 20%, num sistema que envolve cerca de 900
franqueadores e 54 mil unidades franqueadas. O fast-food é ainda a nota dominante,
representando 25% das unidades totais, mas as perfumarias e as lojas de cosméticos
começam a conquistar terreno.
Das dez maiores marcas
franqueadas deste país, quatro estão ligadas a este sector: O Boticário, a L'Acqua di
Fiori, a Chlorophylla, e a Água de Cheiro. |

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Quadro 1.2 As maiores marcas do
Brasil
RANKING |
Marca |
Actividade |
Nº Total de lojas |
| Correios |
Lojas de atendimento dos serviços
prestados pelos Correios |
11 378 |
| Kumon |
Ensino de matemática, português e
japonês |
1 843 |
| O Boticário |
Perfumaria e cosméticos |
1 476 |
| Chlorophylla |
Perfumaria |
1 006 |
| L Acqua di Fiori |
Perfumaria e cosméticos |
755 |
| CCAA |
Ensino de inglês e espanhol |
715 |
| Água de Cheiro |
Perfumaria |
699 |
| Fisk |
Educação e formação |
567 |
| Nipomed |
Comercialização de planos de saúde |
564 |
| Colchões Ortobom |
Comercialização de colchões e
acessórios |
540 |
_________________________________________________________
Fonte: Guia de Oportunidades em Franchising 1998 do Instituto Franchising do Brasil |
Tal como nos Estados Unidos,
também as escolas de línguas têm o seu lugar reservados no mercado de franchising
do Brasil, sendo a Kumon, de origem japonesa, a maior cadeia com 1843 estabelecimentos.
Mas a grande expansão no mercado de franchising
brasileiro está a acontecer no ramo da informática e da electrónica. Este sector
verificou um crescimento de 57% no último ano, superando a média de crescimento do
mercado. |